Como o Reggae é visto na sociedade

“Aperta um pra achar que está na consciência rastafári
Que ser cantor de reggae é imitar o Bob Marley”
(Raçaman – Natiruts)

O Reggae é um gênero musical que carrega consigo um estereótipo um tanto pejorativo.

É difícil falar sobre o assunto sem que três coisas venham à mente das pessoas: Bob Marley, rastafári e maconha. Embora esses fatores tenham grande influência na história do Reggae, boa parte da sociedade sequer sabe sua correlação – ou sequer sabem que eles não são necessariamente sinônimos de Reggae.

É importante ressaltar que a importância de Bob Marley para o Reggae é inegável, afinal ele foi o grande expoente do estilo no mundo, mas ele não pode ser considerado o resumo de uma cultura musical tão rica, que conta com inúmeros artistas que o representam com veemência. Mas isso é um assunto que trataremos mais adiante.

O Reggae surgiu como uma música do gueto, e por isso muitas vezes ainda é tratada como algo marginalizado. Mesmo após tantos anos de lutas e conquistas, o Reggae ainda é facilmente associado apenas à pobreza. Trocando em miúdos, “quem ouve Reggae não pode almejar uma vida mais confortável”.

Além disso, geralmente carrega letras muito politizadas e de resistência, o que gera certo incômodo na sociedade.

Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para encontrar exemplos de associação da música com um estilo de vida controverso. Veja alguns exemplos:

“A maioria de nós conhece pelo menos uma pessoa que encarna o estereótipo “maconheiro”: o tipo de hippie desleixado, com um armário cheio de t-shirts rasgadas do Bob Marley” (Fonte: Huffington Post)

“Bob Marley, o rei do Reggae e da Cannabis, pode em breve ter sua própria linha de maconha” (Fonte: Revista Fortune)

Fato é que o Reggae carrega consigo todo um movimento, que possui como base “o amor, a unidade, a positividade, e a busca pela verdade”, como bem destacou Chris Blackwell, fundador da Island Records, primeira gravadora que lançou os Wailers.

Agora, vamos derrubar alguns mitos e relembrar algumas coisas que todos já sabem, mas fazem questão de esquecer.

Bob Marley

Vou contar um segredo para os mais desavisados: Bob Marley não é o único artista incrível no mundo do Reggae.

É claro que é praticamente impossível falar de Reggae sem citar aquele que foi um dos maiores responsáveis pela globalização do estilo, porém, como bem lembrou a Agência Efe em um artigo recente, nem tudo é sobre Bob Marley.

“Enquanto no exterior pensam que Bob Marley é uma superestrela, na Jamaica é visto igual a muitos outros artistas do gênero. (…) Devemos entender que os jamaicanos não têm a mentalidade de superestrelas. Aqui as celebridades não são colocadas num pedestal, como ocorre em outras partes do mundo”, explicou Ray Hitchins, professor da Unidade de Estudos de Reggae do Instituto de Estudos do Caribe, da universidade jamaicana de West Indies.

Existe um leque enorme de músicos excepcionais que merecem todo respeito e admiração, portanto, vamos tentar abrir a mente para novas sonoridades e sair um pouco da caixa.

Bob Marley também foi um mensageiro da cultura rastafári, o que nos leva ao próximo tema que sempre aparece ligado ao Reggae.

Rastafari

Depois dos anos 1970, o rastafári tornou-se mundialmente conhecido e passou a ser facilmente associado ao Reggae, especialmente após o sucesso mundial de Bob Marley – um dos primeiros artistas na Jamaica a declarar-se publicamente como um rasta. Mas durante muitos anos, os rastafáris foram tratados como cidadãos de segunda classe e desprezados por muitos jamaicanos.

A origem do movimento ocorreu durante a coroação de Hailê Selassiê como imperador da Etiópia, em 1930. Ele é considerado o símbolo religioso de Jah (Jeová) encarnado pelos adeptos do movimento rastafári.

Bob ajudou a espalhar a consciência da religião por todo o planeta por meio de suas aparições públicas e também das letras de suas músicas, mas ele não era a “trilha sonora” dos rastafáris. Na verdade, os ritmos dos cânticos Nyabinghi, tradicionais da cultura, foram uma influência para ritmos como o Ska, o Rocksteady, e o próprio Reggae.

movimento Nyabinghi
Membros do movimento rastafári Nyabinghi durante uma cerimônia em janeiro de 2001, em Kingston, Jamaica (Imagem: Reprodução / Jean-Claude Coutausse)

Maconha

Outra associação comumente feita ao Reggae, principalmente por muitos músicos se declararem rastafári, é o uso da maconha. Além disso, as excessivas fotos e desenhos de Bob Marley fumando a erva que estampam materiais relacionados ao Reggae ajudam a destacar essa imagem.

O uso da maconha dentro do movimento rastafári tem um cunho espiritual, mas nem todos os rastas são adeptos do fumo. Ela é usada em reuniões para ajudar a aumentar a sensação de comunidade, além de induzir a um estado de meditação que os leva para mais perto do divino.

Dificilmente os rastafáris referem-se à substância como maconha; geralmente eles a descrevem como “erva da sabedoria”. Baseando-se em textos bíblicos, eles também utilizam o termo “erva sagrada”.

“E disse Deus: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento” (Gênesis 1:29)

“É melhor ter verduras na refeição onde há amor do que um boi gordo acompanhado de ódio” (Provérbios 15:17)

Em suma: a maconha não é um requisito, mas é muito popular na cultura rastafári.

Rasta fumando maconha em plantação
Rasta fumando maconha em um armazém em Janeiro de 2001, em Blue Mountains, Jamaica (Foto: Jean-Claude Coutausse)

Preconceito X União

Invoco mais uma vez essa música que ilustra tão bem o assunto:

“E essa conversa que preto “roots” é preto pobre, é preto sujo
Tu aprendeu na escola”
(Raçaman – Natiruts)

Ainda é fácil se deparar com o preconceito entre os próprios apreciadores do Reggae. Uma espécie de rivalidade sem sentido entre “Roots X Pop X Surf” ainda gera muitas discussões onde alguém quer impor seu ponto vista, tentando desmerecer os demais.

As opções estão aí, e cada um ouve aquilo que mais lhe agrada, que mais combina com as suas ideias, que alimenta sua alma. O importante é que haja sempre respeito pela decisão do próximo.

Não podemos esquecer que o Reggae surgiu como uma forma de expressão contra opressores e suas práticas discriminatórias. A união é o que faz a força. Não vamos deixar que rótulos atrapalhem a disseminação da mensagem, independente de cor, credo ou classe social.