Como surgiu a cultura do Sound System

O Sound System é, sem dúvidas, uma parte muito importante da cultura e da história jamaicana. Tudo começou como uma forma de entretenimento em pequenas reuniões entre amigos – e também como marketing para atrair clientes para algumas lojas. Alguém levava um toca-discos e uma caixa de som para algum canto da Jamaica e colocava um vinil de R&B, Blues ou música caribenha para girar.

Na década de 1950, nos guetos de Kingston, deejays começaram a ampliar essa ideia, e então passaram a reunir várias caixas de som, ligar os seus toca-discos e levar a música para a rua, para o povo. Logo, as pessoas começavam a se aglomerar em frente ao “paredão” para sentir a linha de baixo bater no peito e fazer vibrar as garrafas de cerveja em suas mãos. O sound system surgia então como uma alternativa para quem não tinha cacife para frequentar os clubes na época.

Alguns sound systems começaram a se destacar, e a rivalidade surgiu. Essa situação deu origem a uma importante figura nessa cultura: o Soundclash, uma espécie de batalha de sound systems.  O “Trojan Sound” de Duke Reid, e o “Downbeat” de Coxsone Dodd eram os maiores rivais. Depois chegou Prince Buster e seu “Voice of the People” para se unir aos sound systems que mais competiam entre si.

Arthur “Duke” Reid e seu sound system
Arthur “Duke” Reid e seu sound system

Para saciar a sede de novidades dos frequentadores, os dois nomes de destaque, Coxsone e Duke Reid, começaram a gravar suas próprias produções. No começo, eram apenas singles com uma única cópia, que era utilizada em seu próprio sound system para manter a exclusividade. Eles eram chamados de “Dubplates”.

No começo dos soundsystems, o som que dominava eram o R&B e o Blues dos vinis importados dos Estados Unidos, mas logo os produtores começaram a investir em novas experiências e criar ritmos com a cara da Jamaica, uma mistura de música negra norte-americana com os ritmos caribenhos, que também eram tocados a região e não deixavam ninguém parado. Era o começo de uma nova era: o ska ganhava vida. As produções de Coxsone Dodd resultaram no famoso estúdio “Studio One”, enquanto Duke Reid fundou o “Treasure Isle”.

Durante a evolução dos sound systems, os deejays começaram a falar no microfone enquanto as músicas instrumentais do lado B rolavam, gritando introduções ou bordões. Logo depois, aconteceu uma espécie de separação entre o deejay (aquele que ficava com o microfone) e o seletor (que colocava as músicas para tocar). Sim, é diferente do que estamos acostumados a ver em outros segmentos da música, como hip-hop e eletrônico, onde o DJ é aquele que assume os toca-discos. Não demorou até que esses artistas acrescentassem performances de dança e começassem a improvisar rimas para animar ainda mais os eventos.

Voando para fora da Jamaica

Os sound systems continuaram ganhando popularidade nos anos 1960 e 1970, e logo sua cultura foi levada para a Inglaterra junto com a imigração em massa dos jamaicanos. Dentre os nomes mais importantes que levaram a cultura do sound system jamaicano para a Europa estão: Jah Shaka, Fatman International, Aba Shanti-I e Channel One. Nos Estados Unidos, um dos primeiros sound systems a aparecer foi o “Downbeat the Ruler”, no Bronx, Nova York, no final dos anos 1970.

Jah Shaka em Londres (1984)
Jah Shaka em Londres (1984)

No Brasil

O Maranhão foi um dos primeiros estados brasileiros a adotar o Reggae. Muitas são as histórias e versões da chegada do Reggae ao Maranhão. Colecionadores de discos, donos de radiolas, deejays e locutores de rádio divergem em sempre relação à isso. Alguns dizem que a primeira vez a se ouvir o gênero foi por meio de rádios caribenhas que, acidentalmente, passaram a ser sintonizadas no estado. Outros dizem que os primeiros discos chegaram pelas mãos de marinheiros no Porto Itaqui, em São Luiz, e que eles os trocavam por mercadorias. E há ainda quem diga que um apreciador de músicas caribenhas, chamado Riba Macedo, teve acesso a alguns discos de Reggae vindos de Belém (PA) – estes, por sua vez, haviam sido contrabandeados da Guiana Francesa.

De qualquer forma, os maranhenses abraçaram o Reggae antes da maior parte do país, e até hoje o estado é conhecido como a “Jamaica Brasileira”.

Enquanto nos anos 1970 os sound systems ganhavam cada vez mais força na Jamaica, na mesma época, no Maranhão, as radiolas também faziam sucesso. Quem pensa que as radiolas foram criadas com base na cultura dos sound systems gringos está enganado. Na verdade, a radiola é um produto da própria cultura maranhense. Isso mesmo, os maranhenses sequer sabiam da existência dos tais sound systems quando empilharam suas primeiras caixas de som na rua.

Radiola Maranhense (Imagem: Internet)
Radiola Maranhense (Imagem: Internet)

Aliás, o Reggae não foi o primeiro ritmo a ser tocado pelas radiolas. Antes de o ritmo chegar às mãos dos DJs e donos das radiolas, outros ritmos caribenhos, tais como a salsa e o merengue, além de música disco e outros tipos de som, eram a principal atração. Estes ritmos eram dançados em São Luis e no interior até meados dos anos de 1970, quando o Reggae chegou para dominar as radiolas.

Outra semelhança entre as radiolas e os sound systems era a rivalidade. Assim como os jamaicanos, os DJs brasileiros também tinham a necessidade de lançar músicas exclusivas para agitar seu público fervoroso.

Porém, a ideia dos sound systems e das radiolas maranhenses só se espalhou para outros cantos do Brasil – principalmente para o Sudeste – há cerca de 15 anos. Para se ter uma ideia, São Paulo viu seu primeiro Soundclash acontecer apenas em 2009.

Atualmente, podemos destacar o festival independente “Reunion of Dub”, dedicado à cultura sound system e que acontece anualmente como um marco. Em sua primeira edição, que rolou em 2013 nas ruas de São Paulo, o convidado especial foi o tradicional Channel One Sound System, da Inglaterra. Em 2014, foram mais de 35 atrações nacionais e internacionais, entre seletores, mc’s, produtores, promotores e amantes da cultura sound system.

Africa Mãe Do Leão Sistema de Som + Zion Gate Sound System + Garage Sistema de Som + High Public Sound System = Equipe Terremoto @ Reunion of DUB – Festival 2014 (Fotografia: Melissa Sirks)

Entre os diversos sound systems espalhados pelo Brasil, podemos destacar o Dubversão Sistema de Som, Muamba Sounds, Jurassic Sound System, Zion Gate Sound System, Africa Mãe Do Leão Sistema de Som, Garage Sistema de Som entre outros.

Africa Mãe Do Leão Sistema de Som + Zion Gate Sound System + Garage Sistema de Som + High Public Sound System = Equipe Terremoto @ Reunion of DUB - Festival 2014 (Fotografia: Melissa Sirks)
Africa Mãe Do Leão Sistema de Som + Zion Gate Sound System + Garage Sistema de Som + High Public Sound System = Equipe Terremoto @ Reunion of DUB – Festival 2014 (Fotografia: Melissa Sirks)

 

Reunion of Dub 2014 no Vale do Anhangabaú – SP (Foto: Luiz Egidio / Divulgação
Reunion of Dub 2014 no Vale do Anhangabaú – SP (Foto: Luiz Egidio / Divulgação