Os diferentes estilos de Reggae

Dentro do universo do Reggae existe uma série de subgêneros que nos ajudam a diferenciar a “pegada” de cada som. Porém, nem sempre essa classificação é fácil ou precisa; e muito menos necessária na hora de sentir a emoção que a música provoca em que a ouve.

Para identificar um estilo ou gênero musical é preciso primeiro olhar para sua história, bem como para as características estruturais da música – forma de cantar, assunto das letras, ritmo, métrica, instrumentos (e o papel de cada um deles), entre outros aspectos. Isso sem contar as fusões, que incorporam elementos de diversos estilos para formar um novo.

Difícil, não? Portanto, é importante frisar que a definição de um gênero (e mais ainda subgênero) musical não é uma ciência exata.

Hoje vamos citar alguns estilos de Reggae, que é um gênero muito rico, e apontar o que diferencia cada um deles para elucidar algumas dúvidas de quem tem interesse em se aprofundar um pouco mais no assunto.

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Sound system nos anos 1970 (Imagem: Urbanimage.tv)

 

O começo de tudo

O Reggae é considerado o terceiro ritmo jamaicano mais importante da década de 1960, precedido pelo Rocksteady, que, por sua vez, teve origem no Ska.

Tudo começou no finalzinho dos anos 1950, após a Segunda Guerra Mundial, quando os jamaicanos passaram a ter mais acesso aos rádios e, consequentemente, a ouvir os ritmos que estavam bombando nas estações norte-americanas. Não demorou até que eles encontrassem no Jazz e no R&B uma inspiração nesse momento pós-guerra.

Alguns produtores que viajavam para os Estados Unidos voltavam para a Jamaica com a mala recheada de discos para tocar em seus sound systems. Unindo essas referências da música norte-americana com a forte influência dos ritmos caribenhos (como o Mento, Calipso e Rumba), os jamaicanos começaram a fazer suas próprias experiências musicais, o que resultou no Ska.

Essas músicas surgiram em um momento de esperança pós-guerra, independência (a Jamaica se tornou independente do Reino Unido em 1962) e busca pela paz. É possível notar todas essas influências no ritmo contagiante do Ska.

Early reggae

O início da história do Early Reggae pode ser datado a partir do final de 1968, quando os músicos receberam algumas influências de gravadoras norte-americanas e começaram a experimentar diferentes padrões rítmicos numa espécie de transformação do Rocksteady. Na época, o termo usado era “Regay”, que pouco depois mudou para “Reggae”, e só depois começou a ser chamado de “Early Reggae”.

Diferente do Rocksteady, o Early Reggae se mostra um pouco mais “animado”, com baterias mais complexas e a presença marcante do órgão Hammond. As letras também começam a ganhar assuntos mais variados. O Early Reggae atravessou fronteiras e saiu da Jamaica para se tornar queridinho no Reino Unido, durante o final dos anos 1960 e inícios de 1970.

Muitas vezes esse estilo é chamado também de “Skinhead Reggae” devido à sua popularidade entre os skinheads britânicos e também pela criação de um estilo com esse mesmo nome, que trazia em suas letras temáticas direcionadas para os skinheads. Mas é importante destacar que nem todo Early Reggae é considerado Skinheads Reggae, mas o contrário sim.

A introdução da música “Stir It Up”, de Bob Marley, representa bem algumas das características citadas.

 

Roots Reggae

O Roots Reggae foi popularizado por artistas como Bob Marley e Peter Tosh, e normalmente se refere ao tipo mais “reconhecível” de Reggae. O estilo dominou as gravações jamaicanas entre meados de 1972 e 1980.

Embora apresente peculiaridades em suas características musicais, o termo “Roots” (Raízes) muitas vezes implica mais na mensagem da música do que em seu estilo musical propriamente dito.

Portanto, muitas vezes o termo é usado para abranger diversos artistas que podem cobrir alguns outros subgêneros do Reggae. Nesse sentido descritivo do termo, o Roots Reggae pode ser associado às letras com mensagens voltadas às crenças Rastafári, a escravidão, fim do colonialismo, passagens bíblicas – principalmente sobre a Babilônia –, e, claro, sobre Jah. Letras sobre a pobreza, opressão racial e meditação sobre temas espirituais também entram na lista.

Em relação às demais características musicais, pode-se destacar a bateria do Roots Reggae, onde os músicos desenvolveram padrões de bumbo mais complexos, com certa influência do Funk e do R&B. Os padrões de guitarra, piano e teclado também foram refinados para os padrões mais conhecidos do Reggae atualmente. Foi nesse processo que o baixo tornou-se uma das características mais definitivas do Reggae como um gênero.

Dub

Ainda nos anos 1970, Lee ‘Scratch’ Perry, King Tubby, Errol Thompson e Bunny Lee foram os pioneiros do Dub, um estilo que envolve uma extensa remixagem de materiais gravados.

O som visceral do Dub possui forte ênfase na cozinha (baixo e bateria), conta com delays, ecos, além de efeitos especiais, como trovões e tiros, por exemplo. As primeiras gravações de Dub ganharam vida como versões no lado B das faixas vocais nos discos.

“Blackboard Jungle Dub “(1973) de Lee “Scratch” Perry e The Upsetters é uma das primeiras gravações de Dub conhecidas.

Rockers

O termo “Rockers” é utilizado como referência a um determinado tipo de Roots Reggae que teve início em 1970 com Sly & Robbie e ficou muito popular no final da mesma década.

Rockers geralmente é descrito como um estilo um pouco mais mecânico e agressivo de tocar Reggae, com uma presença de padrões de bateria sincopados e grande destaque para o baixo. O termo também ficou mundialmente conhecido graças ao filme homônimo, de 1978.

Lovers Rock

O Lovers Rock surgiu no meio da década de 1970, e teve forte presença no sul de Londres, onde acabou se solidificando. Artistas como Alton Ellis e John Holt se especializaram em cantar uma melodia influenciada por artistas do soul norte-americano, e logo os sound systems britânicos começaram a abraçar os covers de baladas românticas.

O Lovers Rock Possui um estilo bem similar ao Rocksteady, e o público feminino sempre mostrou uma queda por suas melodias mais suaves com letras que exploram os altos e baixos dos relacionamentos, falando quase sempre de amor. Muitas mulheres se destacam no estilo, como Janet Kay, que conseguiu chegar ao mainstream com a música Silly Games (1979). Destaque também para o trio Brown Sugar, que gravou sua primeira faixa quando ainda estava na escola.

Dancehall

No final dos anos 1970, temas como injustiça social, repatriação e o movimento Rastafári – que faziam parte do Roots Reggae – foram surpreendidos por letras sobre dança, violência e sexualidade. Isso foi decorrente da mudança de partidos políticos e da agitação que rolava na Jamaica. Um novo estilo surgia: o Dancehall, focado em temas mais “apimentados” e com artistas como Yellowman, Barrington Levy e Eek-A-Mouse ganhando notoriedade no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Uma característica importante do Dancehall é o papel dos selectors nos sound systems, que rotineiramente usam o controle de volume dos mixers para remixar o riddim em torno dos padrões rítmicos dos vocalistas.

Quando falamos em Dancehall fica um pouco difícil não falar de “Ragga” (ou “Raggamuffin”). Trata-se de um termo que geralmente é usado para descrever um tipo de Dancehall que emergiu nos anos 1980 e conta com instrumentações digitais, mas poucos elementos do que é tradicionalmente visto como Reggae.

New Roots

Nos anos 1990, a violenta realidade de Kingston acendeu uma luz de alerta, ainda mais após a morte de deejays como Pan Head e Dirstman, ambos mortos a tiros em 1993.

A época então foi marcada por uma grande mudança no Dancehall, pois diversos artistas resolveram voltar às origens e abraçar temas Rastafári e culturais. Muitos abandonaram o estilo “slackness”, marcado por letras sexuais, para escrever músicas sobre direitos iguais e justiça, como Capleton e Buju Banton.

Esse movimento de retorno às raízes fez com que um novo termo surgisse: o “New Roots”, que mesclava as tradições dos anos 1970 com referências sonoras mais modernas.

Gêneros de Fusão

Artistas sempre gostaram de misturar o Reggae com outros gêneros desde a década de 1970, mas apenas em 1990 o termo foi criado para definir essa mistura toda. Na verdade, o tal termo “Gêneros de Fusão” é mais técnico, afinal todos chamam de Rock Reggae, Pop-Reggae, Samba Reggae, e assim por diante.

Vamos citar alguns dos milhares de exemplos possíveis para ilustrar os Gêneros de Fusão: Sublime, Shaggy, Natiruts, Os Paralamas do Sucesso, e, mais recente, Magic!, um quarteto canadense que, apesar de não gostar de rotular sua música, alcançou o topo da Billboard, e ainda liderou os trending topics do Twitter graças a um som considerado Pop-Reggae.